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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

As pequenas memórias

 Este pequeno livro é pequeno apenas no número de páginas que tem. É riquíssimo quanto a vivências que mostram um pouco da vida deste autor Nobel da literatura (único português).

Saramago vai retratando aqui um pouco da sua vida, primeiro na Azinhaga do Ribatejo e depois em Lisboa, onde passa uns anos da sua vida e entra para a escola técnica e frequenta aulas para se formar em serralheiro mecânico. A parte das Canárias ainda não consta aqui, mas tudo o que escreve é como se estivéssemos a percorrer com ele, de mão dada, e ele a mostrar-nos como era ser aluno sentado das carteiras da escola, como era viver com a avó na aldeia, como era quando alguém errava nas palavras que escrevia nos textos da escola, como era sair de madrugada com o seu tio para vender o porco mais gordo na feira, como era o rio da sua terra — o Almonda e tantas, tantas outras magníficas vivências que só tem quem vive nestes locais onde a natureza se confundo com o Homem. 

Azinhaga do Ribatejo é perto de uma belíssima área protegida —Paúl de Boquilobo, com uma vida selvagem enorme. Saramago estava rodeado de natureza, sem telemóveis nem computadores, como é natural que fosse, naquela época. As crianças e jovens entretinham-se brincando umas com as outras, aprendendo com os adultos ou explorando a natureza que os rodeava. Deixo aqui um pequeno pedaço dessas vivências:

"Então digo à minha avó: Avó, vou dar por aí uma volta. Ela diz: vai, vai, mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos que educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge, pego num pau para o caso de me ter que defender de um mau encontro canino, e saio para o campo. Não tenho muito por onde escolher: ou o rio, e a quase inexplicável vegetação que lhe cobre e protege as margens ou os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante...".

E sabem do que me lembrei? Do menino da "Maior Flor do Mundo", livro infantil de Saramago, em que um menino se aventura pelos campos e atravessa a sua aldeia para dar de beber a uma flor que está definhada. Aqueles percursos de Saramago, fizeram-me lembrar os percursos deste menino! 

Este livro é agri-doce e intenso. Com uma linguagem fluida, mas sem deixar de ser prospera. Somos convidados a explorar termos que se usavam naquela época, enriquecemos também nós o vocabulário, olhamos através dos olhos de Saramago enquanto criança. Conhecemos costumes, alimentos, tradições daquela zona do Ribatejo.


palavras do livro que despertaram, em mim, outras palavras:
  • Ternura;
  • Nostalgia;
  • Vivências;
  • Aldeia;
  • Natureza;
  • Criança;
  • Humor e inteligência.

🌠Ler para:

- viajar com Saramago através da sua Azinhaga do Ribatejo;

- conhecer mais sobre as vivências da criança e jovem Saramago;

- adentrar pela linguagem rica em vocabulário;

- recordar palavras que se usavam em determinados locais e determinadas épocas;

-conhecer os "bastidores" do grande (e simples) Nobel da literatura portuguesa.


A minha edição é da antiga "Caminho", as páginas já se encontram soltas, mas este é dos poucos livros que apetece ler outra vez (revisitar muitas vezes).

Título: As pequenas memórias

136 páginas.

Autor: José Saramago

Editora: Porto Editora

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Ainda Estou Viva de Han Eun-Mi









"Ainda Estou Viva" é um relato cruel, mas infelizmente verdadeiro de uma norte coreana que consegue fugir e ir viver para a Coreia do Sul. 

Para quem não tem "estômago forte" este livro não é de facto recomendado, mas para quem quer saber um pouco mais no que se passa naquela terra tão estranha deve mesmo ler, pois é quase surreal que exista ainda um território onde se passam tantas coisas desumanas! Sim, bem sei que não é o único local da Terra onde existem coisas que já não se deveriam passar, muito desgraçadamente para a evolução do ser humano! 

Han Eun-Mi nasceu numa família que não sendo rica, vivia de forma razoável (classe média baixa ou equivalente a isto). A mãe de Eun-Mi, depois de ter sido (em solteira) professora (com um salário razoável), passou a vender bolos de arroz no mercado (baixando consideravelmente o seu rendimento) e o pai, trabalhava numa fábrica. 
Quando o país entrou numa grande crise e as rações alimentares (?!), com as quais a maioria das famílias menos abastadas contava, terminaram, a família de Han Eun-Mi reduziu drasticamente as suas possibilidades de sobrevivência, é isso mesmo, sobrevivência, o sustento/alimentação do dia-a-dia, já não se tratava de "viver", mas de "sobreviver"! Entretanto o pai da autora, deixou também de fazer as mesmas horas na fábrica onde trabalhava por ter magoado, severamente uma das pernas num acidente de trabalho. 

A dada altura, esta família de 4 pessoas (porque a autora tinha também uma irmã mais nova), passa fome e faz de tudo só para arranjar as refeições diárias (inclusivé, chegam a comer restos de couve deixada pelos vizinhos!). 

É extremamente sofredor e angustiante este retrato que Han Eun-Mi nos deixa, mas ao mesmo tempo, passa a ideia de que há esperança ainda assim...pelo menos para ela existiu, caso contrário não teríamos acesso a nada do que escreveu (já se sabe, pois...).  A autora demonstra sempre uma grande determinação e força de vontade, muito embora sejam gigantes os obstáculos pelos quais passa, pois consegue fugir, primeiro para a China depois, finalmente, para a Coreia do Sul. 

Ao longo deste duro percurso, Han Eun - Mi passa por duríssimas condições de campos de trabalho forçado, só para ganhar o sustento e a sobrevivência, tem um filho de um homem que faz dela a sua escrava (na China) e consegue, de forma gloriosa, escapar-se para a Coreia do Sul onde passa a ter sonhos e uma vida dita "normal". E não se trata de ficção, mas sim da vida real, ao vivo e a cores, que incrivelmente é mais dura do que qualquer drama ficcional. 
Após tudo isto, considero-me uma sortuda, feliz da vida por ter nascido neste país, livre, onde há a possibilidade de se ganhar sustento de forma justa, onde temos qualidade de vida, pelo menos acesso a ela para a maioria de quem cá vive.

Pois, mas ainda não é assim para muitas regiões deste planeta Terra onde animais são mais humanos do que os próprios humanos...

O livro tem ilustrações bem bonitas que nos vão dando imagens visuais (tristes, muito tristes) de algumas cenas da vida de Han Eun-Mi. É um livro pequeno, mas sinceramente, difícil de se ler. 
Se vale a pena? Muito a pena! Ao menos abre-nos os olhos para algumas realidades!

Só consegui dar-lhe 4 estrelas no GoodReads pois às tantas tornou-se muito "mais do mesmo" angustiante e sofrido, mas se calhar, não poderia ser de outra forma, pois trata-se do que foi real para a autora. Desejo-lhe a concretização dos seus maiores sonhos em território livre e que permite aos seres humanos, serem humanos.

Assim que me for possível e tiver este livro (pelos vistos outro relato de uma fugitiva da Coreia do Norte) "Porque Escolhi Viver" de Yeonmi Park vou lê-lo também, pois parece ter recebido críticas muito positivas e é um acrescento acerca das condições de vida na Coreia do Norte.


173 páginas
Autor: Han Eun-Mi
Editora: ASA






quinta-feira, 11 de julho de 2019

Gratidão de Oliver Sacks

"Aos oitenta anos, as marcas do declínio não podem deixar de ser demasiado visíveis. As nossas reações são um pouco mais lentas, os nomes escapam-nos com maior frequência e torna-se forçoso que poupemos mais as nossas energias, mas, apesar de tudo isso, podemos sentir-nos por vezes cheios de energia e de vida, de maneira nenhuma "velhos"."


Oliver Sacks escreveu este pequeno enorme livro perto da sua morte - aos 82 anos, sendo que tem a plena consciência que não chegará a ser "bismuto", o elemento 83 da tabela periódica. Desde criança apaixonado pela biologia e ciências em geral, cedo faz um paralelo entre os seus aniversários e os elementos da tabela periódica, assim, refere que aos 82 anos é "chumbo", correspondente ao elemento 82 da tabela periódica.

A mim, que nunca tinha passado esta ideia pela cabeça pensei que é uma bela equivalência, reveladora do amor profundo que o autor tinha pela vida na sua pura essência, sim, porque atrás de sucessivas camadas está a química orgânica, as moléculas e os átomos de que todos nós somos feitos.
Este é na realidade um retrato autobiográfico em que o autor vai relatando vários episódios da sua vida, de médico, mas também e essencialmente de pessoa, cheio de energia e vontade pela vida em si, por viajar, nadar, conhecer, compreender tudo o que o rodeia e por tudo isto, pela vida em si que teve transmito-nos que acima de tudo se sente privilegiado por cá, nesta Terra ter passado e por ser um ser consciente dessa mesma vida, de ser um ator e ao mesmo tempo um observador.
Imagem de Clker-Free-Vector-Images por Pixabay

Palavras para quê? Extraordinário é o livro e o homem que o escreve. Para além deste tem muitos mais que um dia vou ter o privilégio de ler, pois as suas palavras são sapientes. Há até quem diga que gratidão é dos sentimentos mais poderosos que podemos ter, não aquela que nos faz dizer, educadamente, "obrigada" ao condutor que nos cede passagem ou à senhora que vende legumes na praça, este agradecimento é sem dúvida importante, mas a gratidão poderosa é aquela que abre o coração e faz sentir um calor cá dentro e uma elevação como há poucos sentimentos que o façam, aquela gratidão que também Carl Sagan refere com esta frase: "diante a vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época consigo."

Que mais dizer sobre este livro de apenas 100 páginas que tem tanto, mas tanto sumo? Excelente, não percam a oportunidade de o ler e de perceber que o conceito "velho" é perfeitamente ilusório...depende muito da perspetiva de quem interpreta esta palavra que por vezes é tão cruel, outras vezes não!

100 páginas
Relógio D´Água
Autor: Oliver Sacks


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Imagem do cabeçalho do blogue de "GimpWorkshop"

Imagem do cabeçalho do blogue de "GimpWorkshop"
Fantasia, Mágico, Surreal. De utilização gratuita.

A Fada do Lar de Sophie Kinsella

Abençoada hora quando decidi ler este livro em férias de verão...este é o livro ideal para levar nas férias! Tão divertido que nos embaraça,...